Fleetwood Mac, narrativa e reflexões

by - outubro 31, 2018

Alguns anos atrás li uma matéria na Rolling Stone onde o entrevistado indicava Everywhere, música da banda Fleetwood Mac. Na época eu não conhecia a banda e fui atrás da música para saber se era tão boa quanto parecia. Era mais, era bem mais. Fiquei obcecada. A banda foi formada no início da década de 70 e é um grupo anglo-americano. Se você curte música um pouco mais antiga, é possível que você já tenha escutado pelo menos uma regravação de alguma música deles. Bem, vamos lá, Fleetwood me tocou profundamente por dois motivos principais: narrativa e Stevie Nicks.

Stevie é uma das vozes da banda e me deixou apaixonada quando entrei de fato na pesquisa sobre o grupo e notei como ela, lá nos anos 70, criou uma misticismo em volta da sua imagem e de toda a banda. Ela usava preto em um tempo onde as cores estavam por todos os lugares, acessórios que hoje chamamos de boho e escrevia sobre mulheres, o tempo e as mudanças. Stevie carregou a lenda de ser uma bruxa durante muito tempo.

"Quando ela disse a uma multidão que uma noite sua canção Rhiannon era "sobre uma bruxa galesa", espalhou-se o boato de que era ela quem praticava bruxaria - novamente um clichê cansado de que a mulher talentosa deveria estar canalizando poderes malignos. "Rhiannon foi a única música que eu já escrevi sobre uma espécie de ser celestial", diz ela, "mas essa música e o fato de que eu usava roupas pretas e flutuantes de alguma forma se tornaram isso, essa ... essa coisa de bruxa (...) Depois de um tempo eu disse: 'Dane-se, eu vou voltar ao preto!'" Ela ri: "E se eles pensam que eu sou uma bruxa eu não me importo porque eu não sou uma bruxa!"."
Stevie Nicks fotograda por Neal Preston.
Outro motivo da minha predileção em relação à Stevie é sua forma narrativa de escrever suas músicas. Veja bem, se analisarmos as músicas da Fleetwood percebemos uma linha literária, herança dos trovadores que em suas canções contavam histórias, além das cantigas de amor, amigo, maldizer e escárnio, que oficialmente fazem parte da tradição literária. Em 77 a banda lançou Rumours, o mapa de fim de relacionamentos em forma de música. A verdade é que quando o álbum foi lançado, a banda se envolveu em uma quantidade enorme de dilemas em seus relacionamentos entre separações, e divórcios e isso foi praticamente vomitado no disco. "O romantismo desenfreado e conflituoso da banda se apresentava diante dos ouvidos de toda uma nação, com letras artísticas e refrões que pegavam de jeito."

"Trauma, Trau-ma. As sessões de gravação eram como um grande coquetel toda noite, pessoas em todos os cantos. Nós terminávamos a noite num destes estranhos quartos de hospital... e claro, eu e John não éramos exatamente os melhores amigos." —Christine McVie, sobre a tensão emocional entre os membros da banda durante as gravações de Rumours em Sausalito.

Depois de me enfiar no Rumours e entender que a narrativa ali, eu voltei pro álbum homônimo à banda lançado em 75. Primeiro ouvi Rhiannon, a música que levou Stevie à toda a história de bruxaria, a música que pouco tempo depois tatuei em mim. Muito além de ser sobre uma bruxa, a música é sobre uma mulher as apresentações ao vivo da música se tornaram teatralizadas, com Nicks vestindo uma roupa negra que a transformava na persona de Rhiannon e ao público, a transformava em bruxa. Bem, agora analise tudo isso e perceba como toda uma história foi criada para uma única música. É dessa narrativa que estou falando.

Algumas músicas depois e eu simplesmente passei dias chorando ao ouvir Landslide. Stevie escreveu a música para seu pai mas eu não tenho dúvidas sobre como cada linha funciona bem dentro de qualquer relacionamento. Landslide é sobre amadurecimento, deixar as coisas para trás, amor, dependência. É claro como o começo da música nos encaminha para uma imagem pronta e bem formada de uma relação, seja ela qual for.

E é isso que acontece com a maior parte das músicas da banda. Você consegue imaginar um background para o que está sendo cantado e a história que o eu-lírico te conta vai te levando ainda mais dentro do que você consegue imaginar. E é por isso que Rumours é considerado o melhor disco da Fleetwood Mac e um dos melhores álbuns dos anos 70 e de todos os tempos. Você navega pela história e se preenche de diferentes sentimentos. Isso traz uma quantidade enorme de reflexões sobre a nossa própria vida, geram identificação com o público. É, sem dúvidas, um dos motivos da banda ainda estar em turnê, lançando músicas e dando seu melhor. No fim das contas eu só quero deixar a dica: escute Rumours pelo menos uma vez durante sua vida.

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