The Carters, arte e vida pública

by - agosto 21, 2018

Grande Esfinge de Tânis
Quando o clipe de APESH*T caiu feito bomba junto com o lançamento de EVERYTHING IS LOVE da Beyoncé e do Jay-Z com o nome de The Carters, a internet foi à loucura com a quantidade de referências são só artísticas mas também à vida pessoal do casal que o álbum continha. Existem dois pontos em tudo isso, qual é o ponto em que todo mundo saber da vida pessoal de duas pessoas famosas é saudável e a linha tênue de transformar grandes histórias em álbuns históricos. 

Acho que é legal entendermos que EVERYTHING IS LOVE é o final de uma trilogia nos álbuns que começou com Lemonade (2016), passou por 4:44 (2017) e chegou ao fim agora. A primeira parte, com o Lemonade, Beyoncé literalmente chutou a porta e entregou pra todo mundo os percalços de seu relacionamento com Jay-Z, traição, dilemas, momentos importantes para o casal e sua visão como mulher dentro do casamento. E aí depois veio Jay-Z com 4:44 dando o outro lado da cara pra bater e também se expondo mais em relação à sua vida privada com Beyoncé e seu arrependimento. E é aí que chegamos em EVERYTHING IS LOVE, onde juntos os Carters nos dão o final da história entre os dois e o relacionamento, é definitivamente um "álbum de família". 

E o álbum passa por músicas que falam de amor, família, . Mas afinal de contas, por que o clipe de APESH*T deixou tanta gente chocada? Bem, primeiro o casal fechou o Louvre - o maior museu do mundo - e usou o lugar como cenário. Passam obras como a Monalisa, A Consagração de Napoleão, O Casamento de Caná, A Valsa da Medusa e mais uma quantidade enorme de obras incríveis enquanto Beyoncé, Jay-Z e seus dançarinos completam o espetáculo visual. E esse espetáculo é completado pelo fato de que as obras e seus criados eram majoritariamente homens, brancos, enquanto Beyoncé e sua equipe são compostas por negros e em maioria, mulheres. A letra da música também deixa bem claro que os dois estão ali para dar simbolismo através da música. 
A Consagração de Napoleão, de Jacques-Louis David
Há também mais da cultura africana, do lado feminino, do negro presente em meio à tanta arte "branca". Beyoncé repete várias vezes I can't believe we made it, this is what we're thankful for, provando mais uma vez que essa inserção do negro e tudo o que o casal alcançou é sim um marco na indústria da música. É sobre subversão e conquista. O Estadão escreveu um texto dando a entender que era uma falta de respeito estarem de costas para as pinturas, que as roupas eram inapropriadas. Bem, na verdade eles não entenderam que o que Jay-Z e Beyoncé queriam eram estar iguais. É claro que a pintura de Da Vinci é arte mas olhe só, eu também sou! 

Algumas metáforas são usadas no clipe de forma que o que está no museu seja complementado pelo casal ou os dançarinos. Ou então, são contrapostas cenas e algumas pinturas - Os Fantasmas de Paolo e Francesca são colocados em contraste com o amor dos dois dançarinos negros em cenas românticas -, e as imagens caminham de forma sutil mas passam uma mensagem pesada. Quadros cheios de gente branca são passados até chegarmos no quadro Retrato de uma Negra de Marie-Guillemine Benoist, onde finalmente uma mulher negra é retratada na arte como principal e não como secundário e em papéis de escravos.  

Então basicamente o clipe de APESH*T é uma tentativa de mostrar para a galera negra que não interessa se os brancos são maioria, os negros também podem, também conseguem, também alcançam e precisam ser reconhecidos como. E onde a vida pública de Jay-Z e Beyoncé ser exposta nos leva até isso? Bem, vamos analisar como eles fizeram de todo o público virar literalmente voyeur neste relacionamento, o site Vice escreveu um pouco sobre isso. Mas de forma geral o que aconteceu é que entramos tanto na vida pessoal, Blue Ivy, o elevador, a traição, a reconciliação e tudo isso que eles usaram então desse acompanhamento para algo maior.

Durante o EVERYTHING IS LOVE, o casal manda mensagens de como estão felizes, de como os negros são grandes, do quanto eles são grandes, de como se tornaram um casal tão importante que não se importam com Super Ball ou com Spotify ou até o Grammy. Os Carters tentam também mostrar que nada vai parar esse amor e tudo soa como uma tentativa de trazer Jay-Z a um ponto de homem "válido", no sentido de que ele foi perdoado e agora está tudo bem entre eles, sua esposa está te dando outra chance e deixando isso, também, claro para todo mundo. 

A música que resume tudo isso é HEARD ABOUT US, onde Beyoncé tenta mostrar que você pode até ter escutado falar sobre os dois mas veja bem, talvez você não saiba tanto assim. Bitch know B, she don't even need a whole name. Mas é nessa música também que eles mostram que muito mais do que serem um casal eles são Jay-Z e Beyoncé, assim, separadamente. No need to ask, you heard about us. E é aí que entra o quanto é importante que - apesar de terem a vida pública exposta - artistas usem disso para mostrar que as coisas estão acontecendo exatamente por eles serem famoso. Negros estão em posição de poder, arte negra está sendo feita, as mulheres não precisam mais de maridos/homens e que o mundo mudou, apesar de toda a arte branca por aí. 

The Carters, a trilogia e a arte mostram que se as coisas já estão diferentes, pode ficar tranquilo que ainda tem muito pra mudar. Você pode até não gostar tanto assim da música que fazem juntos, mas a quantidade de conteúdo histórico, cenas em clipes, representatividade e simbolismo contida é absurda e representa grande parte da população negra. E talvez eles estejam certos, talvez tudo realmente seja amor. 

"I will never let you shoot the nose off my Pharaoh"

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