Queer Eye, RuPau'ls, machismo e desconstrução

by - agosto 19, 2018

Queer Eye: Feiura Não Tem Conserto
Em 2003 foi ao ar Queer Eye pela primeira vez. Eu obviamente não acompanhei já que na época o auge dos meus 7 anos não me possibilitava, mas em 2018 a Netflix revolveu promover um revival do programa. Queer Eye for the Straight Guy é um reality show comandado pelos Fabulosos Cinco, um grupo de cinco homens homossexuais prontos para mudar a vida de alguém por completo. Eu sei, isso soa completamente clichê e você pode até achar que tem uma quantidade enorme de programas assim mas não é exatamente dessa forma. 

Queer Eye toca em um ponto importante: a desconstrução do machismo para que a pessoa se sinta livre. Na maioria das vezes temos o costume de achar que o machismo só prejudica as mulheres mas a verdade é que alguns homens também são oprimidos pelo machismo. Não pode chorar, não pode abraçar o amigo, não pode demonstrar afeto, não pode isso, aquilo, tudo numa tentativa ridícula de reafirmar sua sexualidade. Bem, é aí que Queer Eye desmonta tudo isso. A equipe ensina o cara a cozinhar para a sua família, ensina que organização pode mudar sua relação com o espaço e com a sua família, ensina que se cuidar é importante e que isso vai muito além de simplesmente fazer a própria barba. O mais incrível e tocante é, sem sombra de dúvidas, a forma como o participante começa mais fechado e retraído e acaba, assim como a gente, em lágrimas e cheio de gratidão pelo Fab5. 
RuPaul's Drag Race: If you can't love yourself, how the hell are you going to love somebody else?
Queer Eye não é o único programa que parece ter uma premissa comum e acaba passando uma mensagem forte por trás. Em 2009 foi ao ar o primeiro episódio de RuPaul's Drag Race, um talent show onde é escolhida a melhor drag queen da temporada. É claro que durante a temporada a gente ri, fica chocado com o talento de cada um ali mas são os diálogos entre as batalhas que realmente tem um efeito de impacto no espectador. As drags conversam sobre dificuldades financeiras, preconceito, família, atendados, violência e também entram em discussões entre si já que acostumadas com a rotina difícil de ser drag, estar em uma competição amplifica tudo. 

O talent show, diferente de QE, faz com que as drags coloquem a mão na massa em uma tentativa de mostrar a elas que há um mundo de drags lá fora e que elas precisam ser as melhores para atingir o patamar necessário. Elas se maquiam, costuram, passam por provas de interpretação e o mais difícil, tem que lidar com a pressão emocional. É estranho ver como as pessoas ainda não entendem a cultura drag já que há relatos de homens se vestindo de mulher desde a Grécia Antiga, isso é, 500 A.C., o termo drag inclusive - dizem as lendas - que foi baseado em anotações que Shakespeare fazia em seus teatros com referência ao termo drag - arrastar -, quanto à roupa das mulheres. 

Bem, onde eu quero chegar com tudo isso é que esses não são simplesmente programas que representam a cultura queer. Por trás de Queer Eye, tem toda uma equipe tentando mostrar o quão tóxico o machismo é, tentando desconstruir uma quantidade enorme de coisas erradas ou inadequadas que aprendemos no decorrer da vida. E é isso que RuPaul's faz também, tentando nos mostrar que atrás de homens vestidos de mulher, tem um artista, um ser humano, uma pessoa que passa por preconceitos e dificuldades enormes para estar ali, mostrando o rosto mundialmente. 

Essa é a mensagem que a gente precisa absorver de tudo isso. Não importa se é gay, bi, hétero, trans ou o que quer que seja, todo mundo precisa deixar de lado algumas convicções erradas, precisa deixar um ou outro pensamento inadequado. Imagine só se todos os participantes de Queer Eye decidissem não se abrir, decidissem que na verdade a forma deles de viver estava certa. Eles não veriam o mundo com outros olhos. Em um dos episódios de QE, os Fab5 falam um pouco mais de religião e aceitação nesse meio. A mãe de um dos participantes então fala a plenos pulmões:

"Esses são cinco homens talentosos que são gays, e com o passar da semana conseguimos criar algumas relações. É disse que se trata, criar relações. Eles compartilharam comigo como foram derrubados e rejeitados. E a igreja deu as costas para eles. Como posso dizer que amo Deus mas não posso amar aqueles que estão bem ali do meu lado?" 

Foquem nisso. Amem o próximo, entendam, respeitem, escutem. Por hoje é só!

Você também pode gostar de:

0 comentários