Distopia, Futuro e Melancolia

by - agosto 20, 2018

Blade Runner 2049 (2017)
Antes de tudo, se você não leu o primeiro texto da série Arquitetura e Cinema, clica aqui e dá uma olhadinha, fiz uma introdução relacionando os dois pra facilitar daqui pra frente pra você. Nos últimos anos, os filmes de ficção científica tomaram proporções ainda maiores e começaram a abordar questões ainda mais pessoais e até possíveis. O cinema trabalha com uma forma única de retrata o futuro de maneira distópica. Suas formas arquitetônicas ao retratar o futuro e a tecnologia são baseadas em um pós modernismo da era pós-industrial. Os filmes que melhor retratam essa distopia são os da franquia Blade Runner. Seu primeiro lançamento foi Blade Runner - O Caçador de Androides em 1982, dirigido por Ridley Scott, diretor responsável por inovar a ficção científica com a franquia Alien. Em Blade Runner os diretores de fotografia são grandes responsáveis pela resposta visual. 

A arquitetura distópica foi pensada para que o desenho de luz, sombra, reflexos e atmosfera entregassem uma resposta visual orgânica ao espectador. Foram criados cenários e miniaturas para manipulação de cenas, deixando de lado o uso de cromaqui, diminuindo o trabalho de computação gráfica. A luz conduz grande parte dos planos e cores, despertando emoções e indo além do sentido estético. O fato de set de filmagens ter sido construído torna a imagem final mais palpável e o espectador consegue se reconhecer mesmo ao futuro, que agora, parece distante. 

A franquia se manteve com Blade Runner 2049 lançado em 2017 e dirigido por Denis Villeneuve. O ambiente distópico ainda se mantém e se firma em um conceito neo-noir, uma mistura do cinema noir clássico com elementos de sombra, luzes, cores neon e futurismo. Tudo foi construído à mão com elementos práticos em maquetes deixando todo o truque para o trabalho manual da equipe de produção. O ambiente ainda tecnológico agora se torna mais sombrio e chamativo. As cores trabalham em harmonia com os ambientes internos minimalistas e fazem com que a atmosfera mantenha seu tom do começo ao fim. 

Denis Villeneuve mostra sua admiração pela criação de ambientes também no filme A Chegada, de 2016. O filme é uma ficção científica e utiliza do ambiente e do futuro desconhecido para conseguir atingir o público ao fala de comunicação. Desta vez o ambiente construído para o longa foi mais orgânico e natural, paisagens simples para que o destaque arquitetônico se firme na nave espacial dos alienígenas. A forma foge um pouco do que se imagina e quando os protagonistas entram neste espaço, há uma surpresa pela simplicidade e pelo vazio. É fácil perceber que Denis Villeneuve tenta ao máximo passar verdade mesmo quando retrata ambientes praticamente inóspitos e utiliza da arquitetura para chegar ao resultado final. 

O que a maioria dos filmes que retratam o futuro tem em comum é o retrato de uma população melancólica e solitária. A representação simbólica nos revela um pedido de socorro da população para as direções onde a tecnologia está nos levando. Assim, o simulacro mostra uma vivência individual em meio à coletividade urbana. Observamos uma espécie de urbe asséptica onde as profecias apocalípticas se aproximam da realidade. Em sua maioria, as metrópoles sucumbiram a um futuro desastroso imaginado a partir das experiências humanas atuais. 

Esta estética foi adotada no início dos anos 70 se firmando a partir dos anos 90 com a popularização dos filmes de ficção científica. Alguns clichês foram inseridos neste ponto e assumimos que o espaço urbano futuro se tornará algo sombrio, com grande utilização de vidro em fachadas verticais e uma vertente solitária na população. Essa visão cinematográfica é resultado de estudos urbanísticos, pessoais e arquitetônicos baseados na tecnologia atual que cresce de forma cada vez mais potente.

A melancolia de um futuro tecnológico demais é facilmente imaginada com base em, até mesmo, dados atuais sobre índices de suicídio em megalópoles. Isso acontece porque nos distanciamos cada vez mais de nós mesmos e nos aproximamos de algo que não existe, que não preenche. É aí que a arquitetura faz seu melhor papel em retratar as relações interpessoais e o resultado da modernidade, um mundo onde a tecnologia tomou conta de tudo e dificilmente a população confia em alguém, ou se relaciona ou até mesmo, e pior, se identifica com o lugar de moradia, primordial para a boa vivência pessoal. O futuro distópico e melancólico é, nada demais do que um retrato da construção que estamos fazendo dia a dia. 

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